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As desventuras do Doutor Miranda, um respeitável senhor que perde as estribeiras depois da terceira dose
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Quarta-feira, Janeiro 31, 2007
Tirando a poeira da casa Então, não sei por que cargas d’água, hoje resolvi reabrir o consultório. Come-backs normalmente são deprimentes. Azar. Fi-lo porque qui-lo. Então, como perdi a prática dessa bodega, e que resolvi reabri-la sem ter assunto para tanto, deixo tão-somente uma dica de livro: Baudolino, do Umberto Eco. Forrest Gump misturado com Barão de Munchausen, só que no século XII. Agrada diversos gostos literários. Tem romance histórico, comédia burlesca, discussão teológica, terceira cruzada, intolerância étnica, e tolerância étnica, histórias de amor, sexo, drogas e trombetas divinas. Tudo muito bem amarrado, apesar dos exageros. Críticas pescadas na net me informam que a reconstrução do período histórico é minuciosa e bem cuidada. Não posso afirmá-lo, pois aprendemos na escola que a Idade Média foi um período de obscurantismo de mil anos. Uma pena. Reconheço que é mais fácil ensinar história em colégio analisando somente os grandes modelos de organização do Estado (ou de reprodução social, ou de acumulação de capital, fica a critério de cada um), e se aprofundando mais no período pós-Revolução industrial. Mas é uma puta sacanagem fingir que durante dez séculos não rolou nada no mundo, sendo que o pau quebrava, em todos os planos. Principalmente porque os alunos acreditam nisso. Eu mesmo passei uma vergonha danada em 1994, ao afirmar categoricamente para a professora de Lógica que do século V ao XV o mundo sofreu sob o véu negro da Idade Média, sendo salvo da escuridão pelo Renascimento. E ela me falou dos renascimentos do século VII, do IX, do XI, do XII e do XIII. Na frente de todo mundo da sala, para meu desespero. O fato é que eu nunca dei notícia de tais renascimentos, e até hoje tudo o que sei é que nada sei, exatamente nessa formulinha bem anterior à decadência do Império Romano, decadência esta também que não conheço muito bem. Enfim, o livro retrata, ainda que como mero pano de fundo, um mundo que eu não conhecia. E é muito bom, e vale a leitura. E no final o cara morre. Porque é óbvio que eu ia soltar um spoiler sem avisar aqui, senão qual seria o objetivo de reabrir o consultório? |