As desventuras do Doutor Miranda, um respeitável senhor que perde as estribeiras depois da terceira dose

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Segunda-feira, Maio 30, 2005
 
Seqüência de noites surreais com meu irmão - Parte 3

Num belo dia - ou num belo fim de dia, eram ali pelas oito horas da noite e o sol ainda brilhava etc. e tal - abri as portas de meu castelo de 15 m² para uma pequena confraternização. Meus pais, meu irmão, uma amiga e o Matheuzim (vide post Conversa de surdos) vieram tomar um vinhozinho e comer deliciosos petiscos compostos de amendoim e só.

O que era para ser uma convivial festinha entre amigos degenerou gravemente. A falta de sustança dos petiscos levou a turba enfurecida a ficar bêbada. Dadas as dez badaladas noturnas, resolvi que deveríamos acabar com a festa, ou meu vizniho afro-africano de grandes proporções dar-me-ia uma surra memorável ou, pior ainda, faria um boneco vudu para me espetar em suas noites de insônia. Para não dar motivo para essa maldição um tanto gay, resolvi para o bem geral e minha incolumidade física pessoal que o melhor a fazer era acabar a festa.

Mas o álcool já tinha feito das suas. Obviamente não seria possível parar por ali com a bebelança. Enquanto meus pais voltavam ordeiramente para o hotel onde estavam hospedados, os demais componentes dessa historinha se dirigiram ao ponto de ônibus, não sem antes comprarem garrafas e garrafas de vinho e cerveja, no intuito puro e simples de continuar a gorozagem na casa de um outro amigo, que por sua vez estava fazendo uma festa, e lá não tinha afro-africanos (nem franco-franceses, nem sino-chineses, nem etc-etceteras) mal-humorados com tendências homossexuais para atrapalhar a folia da moçada.

Mas a seqüência surreal da noite não aconteceu nessa festa (enfim, aconteceu, mas meu irmão me proibiu de contar a parte em que ele deu o kit-vexame-completo; se o leitor o conhecer, pode perguntar-lhe diretamente. Senão, dançou, já era, nunca vai ficar sabendo). Pegamos o ônibus, naquele estado acima do tom e do volume que os bêbados assumem. Papo pra lá, piada pra cá, risadas demenciais, o show de sempre. Lá pelas tantas, a amiga me pede pra falar francês (ela morava em Londres, e, como toda menina, adoooora francês). Viro para ela e digo:

- Vou fazer melhor. Vou recitar um poema em francês. Cê vai dar pala. Segura aí:

(Abre paréntesis)

Bernardo, o mestre dos magos da língua francesa, me ensinou um poeminha justamente para tirar onda com a mulherada que adoooora francês. Vou escrever nas linhas que se seguem o poema, a fonética do poema e a tradução do poema, pra vocês entenderem a parada.

(Fecha parêntesis)

1 - O Poema

Pie a nid haut
Caille a nid bas
Chat n’a nid
Ni haut ni bas

2 - O som do Poema

Piá Niô
Caia Nibá
Xananí
Niô nibá

3 - A tradução do Poema

O pica-pau* tem o ninho alto
A codorna tem o ninho baixo
O gato não tem ninho
Alto nem baixo.

* tradução aproximativa

Pois bem. A moça que pediu pra falar francês ficou com uma cara meio decepcionada, meu irmão e o Matheuzim caíram na gargalhada, e enquanto eu explicava para a moça o porquê da brincadeira, um outro afro-africano de grandes proporções, que estava desde o início no balaio, começa a me injuriar escandalosamente, numa língua indecifrável, mas cheia de vogais e bem parecida com o poema. Com o dedo em riste no meu nariz, ele vociferava, cada vez com mais veemência. "Vou tomar porrada", pensei. Ainda olhei para os amigos, para ver se eles me ajudavam na situação. Cada um mais horrorizado que o outro. E o pior era que eu tinha vontade, ao mesmo tempo, de me justificar para o cara, para afastar qualquer mal-entendido, de mandá-lo à puta que o pariu por ficar pagando pau à toa (além de prestar atenção em conversa alheia, mesmo que a gente estivesse conversando aos berros), e de rachar de rir com a situação toda. No entanto, tudo o que eu consegui dizer foi "Calma, senhor, eu não fiz nada de mal". O que o deixou mais emputecido ainda.

Para o bem geral e minha incolumidade física pessoal de novo, o camarada desceu no ponto seguinte, ainda com o dedo em riste, e continuou xingando até que o perdêssemos de vista. Pena que eu não entendia sua língua, teria aprendido uns quinhentos palavrões diferentes.

E a noite surreal ainda estava nos primórdios...