O Consultório do Doutor Miranda

As desventuras do Doutor Miranda, um sério estudante que perde as estribeiras depois da terceira dose

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Quarta-feira, Dezembro 22, 2004
 
Conversa de surdos

Lembrei-me hoje dessa historinha, e como há muito não escrevo nessa bodega, achei que ia ser divertido postá-la. Se não tiver pra vocês a mesma graça que teve pra mim, adivinha? Isso mesmo, azar o de vocês.

Bom, tinha eu minhas duas semanas de França, talvez menos, e estava naquela famosa situação resumida pela velha fórmula sai-da-casa-dos-pais-desembarca-em-país-estrangeiro-sem-falar-a-língua-sem-saber-o-que-fazer-sem-ter-onde-morar-pulando-de-hotel-em-hotel-em-busca-de-apartamento-sem-conhecer-ninguém-mas-ninguém-mesmo-à-exceção-do-Matheuzim que todo mundo um dia já passou na vida. Enfim, quase todo mundo. Tudo bem, só os muito doidos que tiveram a coragem (porra-louquice?) de comprar uma passagem e vir na raça. E não, não me vanglorio disso. Fosse pra voltar no tempo e escolher de novo, não trocaria nunca o quentinho das Alterosas pelo frio parisiense. Mas isso é outra história.

Enfim, eu estava completamente isolado na cidade-Luz, tendo por conhecido única e exclusivamente o Matheuzim que, por sua vez, estava arrancando os cabelos para terminar sua dissertação de mestrado.

Mesmo estando atolado, Matheuzim recebeu a visita de uma horda de ostrogodos. Na verdade, eram três amigos alemães (um casal e outra menina), sendo que o casal ficou hospedado no mesmo hotel em que eu estava e a menina foi pra um albergue não muito longe. Justamente nesse albergue é que se passa nossa aventura.

Abre parêntesis. Eu e o Matheuzim passamos boa parte das sextas-feiras da época de faculdade tomando cerva e tocando violão, a tarde inteira, emendando por vezes as saídas das sextas à noite. Quando eu falo boa parte das sextas-feiras, isso significa umas 120 sextas, ou seja, um compromisso quase laboral, ou quase religioso, fica a critério de cada um. Aí, depois de mais de três anos de cervejadas e violadas seguidas, o puto se manda pra França e eu fico sem a viola das sextas. Assim, quando comprei a passagem pra França, pensei "doido, as sextas com viola e cerva estão de volta!" Neca de pitibiribas, o Matheuzim não tinha mais viola e a cerva aqui é cara pacas. Fecha parêntesis.

Mas eis que nesse albergue, nos contou a moçoila ostrogoda, "funciona um bar cuja cerva é barata e tem um monte de gente bacana que toca violão a noite inteira". Se fosse brasileira, ia dizer que o albergue era tudo de bom. Sorte dela que não era, se livrou de tomar um pescotapa (eu adoro dar pescotapas em meninas que falam "tudo de bom").

Fomos pois ao albergue, cheios de esperança e nostalgia. A cerva realmente não era cara (dizer barata seria exagero), mas o monte de gente não era bacana, um bando de english spoken que não faziam a mínima questão de demonstar simpatia. Além do mais, ninguém estava tocando. Entretanto, um australiano, talvez o único gente boa, emprestou uma guitarra semi-acústica DO CARALHO e pudemos relembrar os velhos tempos, tocando as velhas canções dos Beatles.

Mas não por muito tempo. O caboclo do bar logo mandou parar com o barulho, e o barulho era a gente tocando de levinho, num canto do jardim, longe de tudo e de todos (que eu sei que roda de violão enche o saco de quem não está participando, e não sou hippie nojento pra ficar esgoelando "Andança" no Brasil 41).

Paramos a música, o Matheuzim devolveu a guitarra pro australiano e, em sinal de agradecimento, puxou aquele papo fiado com o mesmo. Perguntou pra ele se ele conhecia música brasileira, e tal, e o cara respondeu que é claro que ele conhecia música brasileira, e que ele curtia muito salsa. Não agüentei (não tenho muito esse tal orgulho de ser brasileiro, mas já tinha tomado todas, e nego não ia falar essa merda a um brazuca recém-chegado e ficar sem troco), levantei-me e soltei a queima-roupa:

- Salsa é seu cu!

Ato contínuo, ele se levantou e me encarou:

- Whatta f...?

Dei uma rápida olhada na mesa. Matheuzim arregalou os olhos como que me dizendo "que que isso, velho, apela não, pelamordedeus!", a namorada dele a mesma coisa e os três ostrogodos ficaram meio com medo de dois caras terem se levantado assim, mas sem entender o contexto, porque eles não estavam prestando atenção no papo sobre música brasileira. Vi que o clima tinha ficado tenso, e resolvi descontrair o ambiente:

- I said "Salsa is so cool, SO COOL"!

Matheuzim caiu na gargalhada, rindo menos pelo efeito do trocadilho do que pelo alívio de não ter que separar briga de marmanjo. Eu ri também, mas não devia, o australiano ficou meio desconfiado que eu tinha tirado um sarro da cara dele. Mas aí o Matheuzim já tinha emendado outro papo com o caboclo e a história ficou por isso mesmo.

E foi assim que fiz minha primeira piadinha em língua estrangeira. Mas não foi o longa-metragem que deu origem à série, infelizmente. Fazer piadinhas engraçadas em outra língua é o nível de excelência a ser alcançado. Ainda chego lá.